domingo, 7 de junho de 2009

As liberdades

O caminho de Réfane para o centro de saúde de Mbambaye é curto, uns 15 minutos de autocarro, que podem ser mais ou menos demorados dependendo da hipótese de atolamento na areia e respectiva recuperação. Pelo caminho a paisagem é desértica, salpicada por árvores de grande porte e muitos embondeiros - as "árvores ao contrário" de Mia Couto, a lembrar o momento de regresso do Principezinho de Saint-Exupéry.



As pessoas, principalmente crianças, juntaram-se à nossa chegada à volta do Centro de Saúde em Mbambaye, que está quase pronto, e onde fomos ajudar a terminar a pintura [aqui não há qualquer tipo de peneiras de (de)formação, ajuda-se no que é preciso, e descobrem-se talentos escondidos :)].


O professor da escola local aproxima-se num francês fluente, e convida-nos a visitar a escolinha amanhã, depois do trabalho. Tem 20 e poucos anos, um ar simples e olhar vivaz, fala espanhol, árabe, wolof, inglês e francês. Tem uma licença, arranjada a custo, para fazer formação na Europa durante 2 meses. Para tal, precisa de um documento de algum europeu que se responsabilize por ele no país de acolhimento e assegure o seu regresso, ao país de origem, A esperança não é a de dois meses, mas sim a de uma porta aberta sem regresso, uma fresta da legalidade.
A partida é a esperança, o el dorado com o qual é tão fácil empatizar, o sonho de uma vida diferente, longe deste deserto e de todas as oportunidades que não existem. Longe também destas crianças, para as quais representa a única oportunidade, num raio de muitos quilómetros, para aprender o básico.

Questões tão complexas.
[Sobre as liberdades que terminam onde outras começam; onde os sonhos justificam os meios, quaisquer meios; onde a nossa importância relativa para um comunidade não é compatível com as ambições - que jazem, como uma miragem, tão longe daqui].

As liberdades - essas mesmo, às quais uma declaração sem terra nos deu direito, são tão únicas como a nossa própria condição.

[Todos iguais. No espaço do nosso coração, na paixão do nosso olhar, no amplexo do nosso abraço. Talvez, ou nem aí. ]


Mas as opções, os horizontes, esses são, infelizmente, definitivamente, tão fugazes como a nossa própria condição.

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